Biometano avança como alternativa para descarbonização

Biometano avança como alternativa para descarbonização

Painel na Fenasucro & Agrocana 2026 reuniu pesquisadoras para debater o potencial do biocombustível, aproveitamento de biomassas e as novas possibilidades para o destino sustentável aos resíduos do campo e das cidades

Transformar resíduos em combustível renovável, reduzir a dependência de fontes fósseis e avançar para um futuro de baixo carbono. Esse foi um dos caminhos apresentados, nesta quarta-feira (12), durante o painel “Biometano para Descarbonização (REBID)”, realizado na Fenasucro & Agrocana 2026, em Sertãozinho (SP). O encontro discutiu o potencial do biometano para progredir na descarbonização e mostrou como a integração entre diferentes fontes de matéria orgânica pode contribuir para amplificar e desenvolver a produção.

Participaram da discussão Cíntia Cristina da Costa Freire, pesquisadora do CCD Etanol; Cláudia Echevenguá Teixeira, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e do CCD Cidades Carbono Neutro; e Betânia Hoss Lunelli, professora da PUC-Campinas e pesquisadora responsável por projeto do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas da FAPESP voltado à gestão integrada de resíduos sólidos urbanos no município de Campinas.

Entre as possibilidades apresentadas está a integração da vinhaça da cana-de-açúcar com a fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos (FORSU). Cíntia explicou que a Rede Biometano para Descarbonização reúne quatro projetos de diferentes instituições para investigar a viabilidade desse modelo, considerando a complementaridade entre os resíduos e também as características de cada região.

Dados apresentados durante o painel, com base em levantamentos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), ajudam a dimensionar este potencial. O estado de São Paulo possui 145 usinas de cana-de-açúcar e nove usinas de biometano autorizadas, além de outras 13 plantas em processo de autorização. Já dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, também apresentados no encontro, apontam que a região Sudeste gera 40,1 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos.

A alternativa também responde à um dos desafios apontados no painel: a sazonalidade da cana-de-açúcar. A vinhaça está diretamente ligada à produção de etanol e, consequentemente, sua disponibilidade varia ao longo do ano. A incorporação de resíduos orgânicos urbanos à biodigestão é estudada como uma possibilidade de diversificar as fontes de matéria-prima e favorecer a continuidade da produção de biometano.

Biomassa e descarbonização

Para Cláudia, o aproveitamento das biomassas representa uma oportunidade de reduzir a dependência de fontes fósseis e aproveitar recursos disponíveis dentro das próprias cadeias produtivas. “O biometano é um combustível que pode entrar substituindo o combustível fóssil. Com isso, reduzimos a pegada de carbono do setor utilizando um combustível de fonte renovável”, reforça.

A produção próxima às áreas agrícolas e às unidades produtoras de etanol também pode favorecer esse processo. Na avaliação da pesquisadora, aproveitar os resíduos onde eles são gerados contribui para fechar o ciclo produtivo. “Se você conseguir fazer essa produção já localizada, próxima da agricultura e das empresas produtoras de etanol, você fecha um ciclo. Então, consegue aproveitar tudo”, destacou Cláudia.

Do resíduo urbano à energia

A discussão avançou também sobre o potencial existente dentro das cidades. Betânia apresentou o trabalho desenvolvido em Campinas para aprimorar a gestão dos resíduos sólidos urbanos e buscar alternativas para reduzir a quantidade destinada aos aterros. Segundo dados apresentados pela pesquisadora, durante o painel, o município gera aproximadamente 1,5 mil toneladas de resíduos por dia, e a fração orgânica representa entre 45% e 48% desse volume.

Esse material pode ser destinado a processos como compostagem e digestão anaeróbia, esta última capaz de gerar biogás e, posteriormente, biometano. Para que esse aproveitamento avance em escala, a pesquisadora Betânia aponta a necessidade de reunir quantidade suficiente de matéria-prima, investimentos, viabilidade econômica e mercado consumidor. “O problema não é a tecnologia, porque ela já existe, já dominamos e está bem madura. O maior desafio é conectar as políticas públicas com essas tecnologias e fazer esse desenho institucional”, ressaltou.

Além disso, para Betânia, levar essa discussão à Fenasucro & Agrocana contribui para colocar o aproveitamento de resíduos no centro do debate sobre a expansão dos biocombustíveis. “Participar da Fenasucro e falar da Rede Biometano para Descarbonização é muito importante diante das mudanças climáticas e da necessidade de expandirmos cada vez mais a produção de biocombustíveis”, disse.

A avaliação reforça uma das questões centrais levantadas durante o painel: o avanço do biometano não depende de uma única solução. Produção, disponibilidade de resíduos, logística, tecnologia, viabilidade econômica e políticas públicas precisam avançar de maneira integrada para que o potencial existente se transforme em projetos aplicáveis.

Para Cláudia, diversificar as biomassas disponíveis faz parte desse processo. “Hoje, quando não tem cana, não tem vinhaça, não tem como produzir biometano. A gente vem discutindo a possibilidade de ter outras biomassas de qualidade para aumentar a disponibilidade de matéria-prima e alimentar esse setor”, explica.

Ao reunir pesquisas sobre resíduos urbanos e a experiência de uma cadeia que já trabalha com o aproveitamento de biomassa em larga escala, o painel mostrou como setores tradicionalmente analisados de forma separada podem encontrar pontos de complementaridade. A perspectiva discutida é transformar resíduos em matéria-prima para geração de energia, ao mesmo tempo em que alternativas são estudadas para fortalecer a oferta de biometano e contribuir para a descarbonização.