16 a 19 de Ago. | 2022
Sertãozinho - SP

Como a semente de cana ajudará a dobrar a produção de etanol sem ampliar a área plantada

Meta é chegar a 60 bilhões de litros por ano para garantir a oferta e atender as metas de descarbonização do RenovaBio

por Delcy Mac Cruz

Os produtores de etanol têm um desafio pela frente que é dobrar a média atual de 32 bilhões de litros por ano. Mas para que dobrar essa produção?

Entre os motivos está o de garantir a oferta para atender a frota flex, hoje em pouco mais de 42 milhões de veículos. 

Atualmente, o biocombustível responde por 48% do consumo, mas se esse percentual crescer de hora para outra será um risco. E essa demanda pode aumentar devido, por exemplo, a altas de preços na gasolina. 

Outro motivo de se chegar a 60 bilhões de litros é de que esse volume será necessário para cumprir as metas do programa de Estado RenovaBio em 2030. 

Em resumo, essas metas são definidas ano a ano a partir de créditos de descarbonização (CBIOs), que equivalem, cada um, a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixa de ser emitida. Em 2022, a meta é de 36 milhões de créditos e, em 2030, saltará para 96 milhões (leia mais aqui). 

Por fim, vale reforçar que quanto mais etanol, menos emissões de CO2. Assim, enquanto muitos países engatinham em políticas de descarbonização, o Brasil faz a lição de casa e fica na dianteira mundial como exemplo de sustentabilidade ambiental.  

 

Estratégias para aumentar a produção

De olho na maior produção de etanol, o setor sucroenergético tem ações já empreendidas e outras que estão no forno. 

Entre as aplicadas estão os aportes na área agrícola. 

Dá para citar tecnologias típicas da Indústria 4.0 como digitalização e emprego de equipamentos de última geração para monitorar pragas e as condições climáticas. 

Junto a isso, há aportes em biotecnologia e nanotecnologia, mais o emprego de práticas como plantio direto e meiosi.

Tanto investimento faz sentido, afinal o campo responde por 60% da produção de um litro de etanol, enquanto os demais 40% vêm da indústria.  

De seu lado, as plantas industriais das usinas têm participação na meta de ampliar a produção. 

Fora os aportes em ganhos de produtividade, há, também, o etanol de segunda geração

Diferente do etanol de primeira geração, que, segundo a UNICA, gera em média 42 litros por hectare de cana, o de segunda resulta em produção de até 50% mais sem a necessidade de aumentar a área de cultivo.  

É certo que a segunda geração ainda avança no Brasil, com uma planta em Alagoas, da Granbio, e duas no interior paulista da Raízen, que já anunciou mais duas e pretende chegar a 20 até 2030.

 

30% mais de cana na mesma área

De volta ao campo, tem aí uma novidade em curso que são as sementes de cana-de-açúcar. Vale destacar que se trata de uma tecnologia em vias de chegar de vez ao mercado. 

E é por demais aguardada por boa parte das usinas. 

Tanta ansiedade se dá porque as projeções indicam que o plantio por meio de sementes artificiais aumentará em 30% a oferta de cana na mesma área. 

Em termos comparativos, o plantio convencional, feito com mudas, gerou 69,6 toneladas de cana por hectare em 2021, segundo a Sociedade Nacional de Agricultura

Já com a semente, devem ser geradas 90,6 toneladas por hectare. 

 

Quem produz as sementes

Entre os fabricantes de sementes artificiais de cana está a canadense New Energy Farms (NEF), responsável pela tecnologia CEEDS, já patenteada em vários países e, que, segundo a empresa, traz, como benefícios, maior vigor, reprodução acelerada e redução no peso e volume de plantio, o que resulta em um plantio mais rápido e eficiente. 

O sistema CEEDS sucede a tecnologia Emerald da Syngenta (leia aqui) e deverá apresentar uma pegada ambiental muito menor que sistemas de plantio convencionais, além de melhorar a saúde do solo. 

A tecnologia de sementes de cana também é desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC)

Em comunicado, a empresa destaca que “o modelo atual de plantio de cana é altamente ineficiente.”

“A elevada necessidade de material genético, equipamentos, operações e insumos, fazem desta atividade uma das mais custosas do processo produtivo da cana”, relata. 

Segue: “o CTC trabalha no desenvolvimento de uma nova tecnologia de plantio, baseado no uso de sementes de cana, obtidas por técnicas de clonagem.”

“Esta tecnologia proporcionará diversos benefícios, como elevadas taxas de multiplicação, diminuição de custos de produção, sanidade do material genético, simplificação operacional, aumento da eficiência de plantio e liberação da área de viveiros para plantio comercial.”

 

Mais oferta e sem desmatamento

“Acredito que a semente de cana é o projeto que vem para resolver a questão do setor”, afirmou Antonio Padua Rodrigues, diretor técnico da UNICA, em painel online da Agribusiness Summitt, da Fenasucro/Agrocana

“O projeto semente é uma nova tecnologia e [com ela] podemos incrementar a oferta de matéria-prima, a oferta de cana, sem desmatamentos.”

Segundo ele, “usar e preservar os recursos naturais passou a permear todas as discussões sobre segurança energética.”

“[E] existe, sim, um entendimento coletivo de que não é mais possível manter o padrão de vida atual sem comprometer o futuro das novas gerações.”

Em linha com isso, “os produtos da cana respondem por 19% da matriz energética ou 40% de toda energia renovável ofertada internamente”, disse. 

E “estas cifras são obtidas utilizando apenas 0,6% da área cultivada com cana no território nacional”. 

Por fim, tudo indica que, com as sementes, as cifras produtivas tendem a ser ainda maiores em uma mesma área. 



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