16 a 19 de Ago. | 2022
Sertãozinho - SP

Como as usinas usam a tecnologia para rastrear as condições de cada canavial

Por Delcy Mac Cruz

Novidades de ponta já implementadas confirmam investimentos do setor sucroenergético nestas e em outras soluções 

Créditos de imagem: Granelli/Divulgação 

Monitorar as condições climáticas do canavial não é novidade no setor sucroenergético. Há décadas empresas produtoras de açúcar, etanol e de bioeletricidade investem em softwares e ferramentas focadas neste objetivo.

E o fazem com uma justificativa pra lá de convincente. Afinal de contas, 60% do litro de biocombustível depende da qualidade da cana e esta precisa estar 100% quando entrarem as frentes de colheita.

Mas tem novidade nesta seara.

Tome o exemplo da BP Bunge, joint venture entre a inglesa BP e da americana Bunge com 11 unidades produtoras em cinco estados.

Ela utiliza solução da IBM orientada por Inteligência Artificial (IA) para analisar dados climáticos em um único local. Objetivo: estimar tendências de produtividade e melhorar a precisão da modelagem para o departamento comercial da organização.

Já no campo da produção de açúcar, a Usina Granelli, com unidade em Charqueada (SP), estreia rastreamento de produção com blockchain.

No caso, a tecnologia oferece ao cliente informações por lote de fabricação diretamente disponibilizadas em QR Code nas embalagens.

Os exemplos da Granelli e da BP Bunge se juntam a inúmeros outros em companhias sucroenergéticas em operação no país. Elas exemplificam que o setor está mais do que firme e se dispõe a aportar em soluções tecnológicas de ponta.

Energia Que Fala com Você lista a seguir alguns dos muitos exemplos de como a tecnologia ajuda o setor a produzir mais e melhor para o Brasil.

Rastreamento com blockchain

A Usina Granelli produz vários tipos de açúcar e, entre eles, o mascavo. Para se ter ideia, esse é vítima potencial de venda de falsificações, além de ter falta de padronização.

Pois é contra isso que a Granelli aderiu de pronto a projeto apoiado pela Cooperativa Coplacana com sistema desenvolvido pela Embrapa Informática Agropecuária de Campinas.

No caso, este software é baseado na blockchain, tecnologia que armazena transações de forma permanente, ou seja, depois de inseridas não é possível apagá-las. E elas somente podem ser atualizadas com a inserção de novos blocos sequencialmente protegidos por criptografia, o que impede adulterações.

E é por isso que a Granelli espera diferenciar seu produto no mercado, o que vai atender a clientes mais atentos e que pagam mais por um açúcar com qualidade controlada.

Para cada lote de açúcar mascavo da usina serão disponibilizadas, segundo relato da Embrapa, a data de produção, a variedade de cana utilizada e a identificação e geolocalização da propriedade rural que forneceu a matéria-prima para aquele lote, tudo, evidente, conforme as regras previstas na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

“A adoção de ferramentas com tecnologias do tipo blockchain embarcadas surge como alternativa importante para atender esse mercado uma vez que possibilitam que cada lote fabricado tenha uma assinatura digital única para criar uma trilha segura de auditabilidade dos dados”, relata o pesquisador Alexandre de Castro, líder do projeto.

Já a diretora de projetos da sucroenergética, Mariana Granelli, relata que a possibilidade de incorporar uma tecnologia como blockchain foi a oportunidade de dar completa transparência e ser reconhecido pelas melhores práticas adotadas na produção.

“O mercado está cada vez mais exigente, quanto mais formos transparentes nessa relação, acreditamos que melhor será a nossa reputação junto ao consumidor”, ressalta.

Ela projeta para este ano um piloto de produção de quatro toneladas de mascavo com rastreabilidade. A Usina também já estuda estender o uso da tecnologia para outros produtos, como o açúcar tipo demerara e destilados alcoólicos.

Projeções de rendimentos globais

Os impactos climáticos nos canaviais, principalmente nos de regiões paulistas, integram seca severa e geadas em 2021. Como consequência, a produtividade da cana na atual safra tem patinado.

Entre o começo de abril a 1º de julho, por exemplo, a produtividade medida por ATR (Açúcares Totais Renováveis) acumulava quebra de 15% ante igual período do ano passado, relata a UNICA, entidade do setor.

Está aí a prova de que os eventos climáticos têm o potencial de causar grandes impactos na cadeia produtiva e de distribuição em todo o mundo.

Pois desde maio último a BP Bunge Bioenergia trabalha com a Build IT Solutions, uma parceira de negócios da IBM no Brasil, para implementar o IBM Environmental Intelligence Suite (EIS).

Objetivo: aprimorar suas estimativas de inteligência de mercado em relação à produção global de açúcar.

Orientada por Inteligência Artificial (IA), a solução é focada em analisar e acessar dados climáticos em um único local, com o objetivo de estimar tendências de produtividade e melhorar a precisão da modelagem de safras de cana para o departamento comercial da organização.

Conforme destaca a BP, um dos principais componentes é a análise geoespacial. Esta fornece atualizações constantes de clima, precipitação, temperaturas mínimas e máximas, quantidade de água no solo, NDVI (Normalized Difference Vegetation Index), entre outros indicadores.

São cerca de 800 camadas de dados decodificados e estruturados pela IBM e disponibilizados para acesso em qualquer lugar do mundo.

Daí, a empresa faz uso desses dados para monitorar parâmetros climáticos, podendo, assim, aprimorar sua inteligência de mercado com estimativas mais assertivas para a produtividade diária em diferentes períodos.

Em síntese, essas informações possibilitam à organização obter uma visão mais ampla das variáveis que podem causar aumento ou diminuição das safras, entender quão impactante o clima será para o desenvolvimento da cana-de-açúcar e ajustar estatísticas relacionadas à produção para tomar as melhores decisões comerciais.

Em relato, Kleber Andrioli, gerente de Inteligência de Mercado da BP Bunge, diz que “existem diversas variáveis e indicadores que precisamos monitorar diariamente para chegarmos a estimativas confiáveis e, ao integrar todos esses dados em uma única plataforma, podemos monitorar os impactos de diferentes indicadores meteorológicos de forma automatizada e com muito mais agilidade.”

Integração de dados

Assim como softwares de monitoramento climático, os de integração de dados são velhos conhecidos do setor sucroenergético.

Ou seja, reunir dados de diferentes áreas do chão de fábrica, traduzi-los em informações a serem entregues em tempo real aos gestores são o modus operandi de sistemas desenvolvidos pelos TICs de companhias ou adquiridos de fornecedores.

No entanto, uma tendência nova nesta linha é de parcerias entre companhias do setor e startups especializadas em soluções tecnológicas.

Foi o que fez a sucroenergética UISA e o hub T4Agro, ambos sob controle do fundo de private equity CVCIB. Eles fecharam parceria com a startup Intelup, na qual fizeram aporte e se tornaram sócio minoritário.

A startup prestará serviços para a UISA. Entre eles está oferecer a plataforma que integra dados do chão de fábrica e, como informações, são entregues em tempo real com benefícios como economia de recursos e redução de custos.

Tem mais.

A Intelup participará, também, como fornecedora de serviços no projeto de planta de biogás que a UISA irá construir com a Geo Biogás & Tech junto à Usinas Itamarati, no Mato Grosso.

Enfim, como se vê pelos exemplos aqui citados, os aportes de companhias sucroenergéticas em soluções tecnológicas vão do campo à indústria, passando por novas fronteiras do setor, caso da produção de biogás e de biometano.