O que vi na Fenasucro: um setor em busca de respostas e preparado para avançar - Por: Hugo Cagno Filho

O que vi na Fenasucro: um setor em busca de respostas e preparado para avançar - Por: Hugo Cagno Filho

Recebi essa missão com gratidão e profundo senso de responsabilidade.

Durante os quatro dias da Fenasucro & Agrocana 2026, tive o privilégio de acompanhar uma das mais completas demonstrações da força, da diversidade e da capacidade de transformação do setor de bioenergia. Neste ano, essa experiência ganhou um significado ainda mais especial pela honra de atuar como presidente de honra da maior feira do mundo exclusivamente dedicada à cadeia da bioenergia.

Recebi essa missão com gratidão e profundo senso de responsabilidade. Essa distinção não representa apenas um reconhecimento pessoal. É, acima de tudo, uma oportunidade de representar milhares de profissionais, produtores, empresários, pesquisadores, trabalhadores e lideranças que construíram a trajetória do setor sucroenergético brasileiro e continuam trabalhando para ampliar sua contribuição ao desenvolvimento do país.

Ao caminhar pelos corredores da feira e conversar com expositores, representantes de unidades produtoras, fornecedores, investidores e lideranças institucionais, uma percepção tornou-se muito clara: o público que esteve em Sertãozinho não procurava apenas conhecer novos equipamentos ou acompanhar tendências. As pessoas estavam em busca de respostas.

Respostas para aumentar a produtividade agrícola, reduzir custos, melhorar a eficiência industrial, ampliar a disponibilidade dos ativos, incorporar inteligência aos processos e preparar as empresas para um ambiente de negócios cada vez mais complexo. Mais do que novidades, os visitantes buscavam soluções aplicáveis, capazes de gerar resultados concretos no campo e na indústria.

Esse foi, em minha avaliação, o grande diferencial da Fenasucro & Agrocana deste ano.

A inovação apresentada na feira não esteve restrita às tecnologias que poderão transformar o setor no futuro. Ela também apareceu em equipamentos, sistemas e serviços preparados para solucionar os problemas do presente. Automação, inteligência artificial, monitoramento em tempo real, manutenção preditiva, agricultura de precisão, redução do consumo de água e energia, aproveitamento integral da biomassa e otimização de processos estiveram presentes de maneira muito objetiva.

Em um cenário de margens pressionadas e investimentos cada vez mais criteriosos, inovar deixou de ser apenas uma possibilidade de diferenciação. Tornou-se uma necessidade para assegurar competitividade, eficiência e continuidade operacional.

O volume de negócios iniciados durante a feira demonstra que, mesmo diante das incertezas econômicas, climáticas e geopolíticas, o setor continua investindo. Não se trata, entretanto, de um movimento baseado em euforia. O que se percebe é uma postura mais seletiva e racional, orientada para projetos que ofereçam ganhos comprovados de produtividade, redução de custos, segurança operacional e novas fontes de receita.

Outro aspecto marcante foi a consolidação de uma visão mais ampla sobre o próprio setor. Há alguns anos, nossas discussões estavam concentradas principalmente na produção de açúcar e etanol. Esses produtos continuam sendo pilares fundamentais, mas o universo da bioenergia cresceu. Hoje, falamos também de biogás, biometano, bioeletricidade, etanol de segunda geração, combustível sustentável de aviação, biobunker, captura e armazenamento de carbono, hidrogênio de baixa emissão e novos bioprodutos.

A Fenasucro mostrou que não estamos apenas diante de uma indústria produtora de açúcar e combustíveis. Somos uma plataforma integrada de energia renovável, alimentos, sustentabilidade e descarbonização.

O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação. Temos conhecimento acumulado, disponibilidade de biomassa, uma indústria fornecedora altamente especializada, capacidade científica e tecnológica e um setor produtivo habituado a superar adversidades. Poucos países possuem uma cadeia tão estruturada e tantas possibilidades de aproveitamento circular de seus recursos.

Esse protagonismo também ficou evidente na presença de dezenas de comitivas de diferentes partes do mundo, que estiveram na feira para conhecer nossas tecnologias, serviços e experiências. Foi uma honra receber esses visitantes e compartilhar iniciativas concretas, como a visita à Usina Vertente, realizada dentro de um projeto voltado ao intercâmbio de conhecimentos e experiências.

A realização simultânea do Congresso da ATALAC, reunindo representantes de diversos países da América Latina e do Caribe, fortaleceu ainda mais esse posicionamento. O encontro mostrou que a bioenergia pode conectar países, aproximar instituições e estimular a construção de soluções conjuntas para desafios que ultrapassam fronteiras.

Entretanto, potencial não se transforma automaticamente em liderança. Para ocuparmos esse espaço, será necessário assegurar estabilidade regulatória, ampliar o acesso a financiamentos, oferecer previsibilidade aos investimentos e reconhecer adequadamente os benefícios ambientais dos produtos renováveis. Também precisaremos intensificar o diálogo entre setor produtivo, fornecedores, universidades, centros de pesquisa, agentes financeiros e poder público.

A aprovação do aumento da mistura de etanol anidro na gasolina para 32% representa um sinal importante de valorização dos biocombustíveis e de fortalecimento da segurança energética brasileira. Medidas como essa ampliam o mercado, reduzem nossa dependência de combustíveis fósseis e demonstram que a transição energética pode ser construída com soluções nacionais, disponíveis e economicamente viáveis.

É nesse ambiente que a UDOP – União Nacional da Bioenergia vem se consolidando como um importante elo entre os diferentes agentes da cadeia. Entre nossos pilares estão o estímulo à pesquisa e à inovação para o aumento da produtividade, assim como a capacitação e a qualificação dos profissionais que fazem todo esse sistema funcionar. Entendemos que tecnologia, eficiência e desenvolvimento somente produzem resultados duradouros quando estão alicerçados em um elemento essencial: o ser humano.

Ao mesmo tempo, precisamos olhar com atenção para os desafios do restante da safra 2026/27 no Centro-Sul.

As projeções indicam uma safra relevante em volume, mas os resultados não serão uniformes. As diferenças de produtividade entre regiões, as condições dos canaviais, a irregularidade climática e o comportamento do ATR exigirão acompanhamento permanente e capacidade de adaptação.

O clima continuará sendo uma variável decisiva. A distribuição das chuvas, os períodos de estiagem, as temperaturas elevadas e o risco de incêndios podem afetar tanto a produtividade quanto a qualidade da matéria-prima. Prevenção, planejamento agrícola, manejo adequado, monitoramento e integração das equipes serão indispensáveis nos próximos meses.

Também teremos o desafio de administrar custos elevados, especialmente nas operações agrícolas, manutenção, insumos, logística e financiamento. Em um ambiente de capital mais caro, cada decisão de investimento precisa estar associada a resultados mensuráveis. Eficiência deixou de significar simplesmente produzir mais. Significa produzir melhor, com menos perdas, maior previsibilidade, segurança e responsabilidade.

Outro ponto importante será a capacidade das unidades produtoras de ajustar o mix entre açúcar e etanol diante das condições de mercado. A flexibilidade industrial é uma das grandes fortalezas do setor brasileiro, mas exige leitura rápida dos cenários, inteligência comercial e disciplina operacional. Preços internacionais, câmbio, demanda doméstica, competitividade do etanol nas bombas e necessidades de abastecimento influenciarão essas decisões até o encerramento da safra.

Não podemos ignorar, ainda, a importância das pessoas. Nenhuma inovação gera resultados se não houver profissionais capacitados para utilizá-la. A velocidade das transformações tecnológicas exige investimento contínuo em formação, qualificação e desenvolvimento de lideranças. Máquinas, dados e sistemas serão cada vez mais relevantes, mas a capacidade humana de interpretar informações, tomar decisões e trabalhar de maneira integrada continuará sendo determinante.

Saio da Fenasucro & Agrocana 2026 com uma convicção renovada: o setor conhece a dimensão dos desafios que tem pela frente, mas também está consciente de sua capacidade de enfrentá-los.

O que vimos em Sertãozinho foi uma cadeia produtiva madura, que não nega suas dificuldades, mas também não permite que elas limitem sua visão de futuro. Uma cadeia que busca eficiência no presente enquanto prepara novos caminhos para a bioenergia brasileira.

O futuro não será construído apenas por grandes anúncios. Ele será resultado de decisões consistentes, investimentos responsáveis, inovação aplicada, cooperação institucional e trabalho diário.

Foi uma honra atuar como presidente de honra desta edição e compartilhar esses dias com tantas pessoas que acreditam na bioenergia como parte essencial de um Brasil mais competitivo, sustentável e preparado para assumir seu lugar de referência mundial na transição energética.

Seguimos com desafios importantes até o fim da safra 2026/27. Mas seguimos, também, com conhecimento, tecnologia, capacidade produtiva e, principalmente, disposição para transformar desafios em novas oportunidades.

 

Matéria por: UDOP